Hepatites virais no município do Rio de Janeiro


Apresentação

Este boletim foi elaborado em conjunto pelo Centro de Inteligência Epidemiológica (CIE) e Coordenação de Vigilância Epidemiológica (CVE) da Superintendência de Vigilância em Saúde (SVS) e Área Técnica das Hepatites Virais da Coordenação das Linhas de Cuidado das Doenças Crônicas Transmissíveis (CDT) da Superintendência de Atenção Primária (SAP), ambas da Subsecretaria de Promoção, Atenção Primária e Vigilância em Saúde (SUBPAV) da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (SMS-Rio). Esta edição do boletim epidemiológico é em formato eletrônico e interativo, com análise dos principais indicadores de hepatites virais no município do Rio de Janeiro. As hepatites virais permanecem como importante problema de saúde pública, em razão de sua magnitude, potencial de cronificação e impacto na morbimortalidade. Entre os principais agentes etiológicos estão os vírus das hepatites A, B, C, D e E, com diferenças importantes no padrão de transmissão e nas manifestações epidemiológicas. No município do Rio de Janeiro, a rede de Atenção Primária à Saúde exerce papel central no rastreio, diagnóstico, notificação e encaminhamento dos casos para a rede especializada, quando necessário. Este documento, em sua quarta edição, tem como objetivo apresentar o panorama epidemiológico das hepatites virais no município do Rio de Janeiro, no período de 2014 a 2025, a partir da análise integrada de dados provenientes dos sistemas de informação em saúde, incluindo o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações (SIPNI) e Sistema de Controle Logístico de Exames Laboratoriais (SISLOGLAB). Espera-se que este boletim contribua para o fortalecimento das ações de vigilância epidemiológica, qualificação da assistência e ampliação do acesso ao diagnóstico e tratamento das hepatites virais, orientando a tomada de decisão e o desenvolvimento de estratégias voltadas à redução da carga dessas infecções no município do Rio de Janeiro.


1. Panorama epidemiológico

Os dados sobre hepatites virais são atualizados semanalmente e podem ser consultados no Observatório Epidemiológico da Cidade do Rio de Janeiro (EpiRio), disponível no endereço https://svs.rio.br/epirio.


A análise da série histórica de 2014 a 2025 evidencia mudanças relevantes no padrão epidemiológico das hepatites virais no município do Rio de Janeiro, com comportamentos distintos entre as etiologias. A hepatite A apresentou a mudança mais expressiva no período recente. Após redução importante entre 2015 e 2021, quando atingiu a menor taxa de incidência da série histórica (0,5 caso por 100.000 habitantes em 2021), observa-se uma inflexão da curva a partir de 2022, com crescimento progressivo e acentuado, culminando em 10,4 casos por 100.000 habitantes em 2025, o maior valor registrado em toda a série (Figura 1.1). Esse padrão sugere não apenas a retomada da transmissão, mas também a possível ocorrência de surtos e mudanças na dinâmica epidemiológica da doença, potencialmente associadas à redução da imunidade coletiva, a mudanças comportamentais e à maior exposição de grupos adultos. Adicionalmente, a partir de 2022, os laboratórios da rede suplementar passaram a notificar resultados reagentes de exames sorológicos para hepatite A, ampliando a sensibilidade da vigilância, o que pode ter contribuído para o aumento do número de casos registrados nos últimos anos. A hepatite B apresentou comportamento mais estável ao longo da série, com flutuações moderadas. Destaca-se a queda nos anos de 2020 e 2021 (2,1 casos por 100.000 habitantes), seguida de recuperação progressiva até 2024 (4,2 casos por 100.000 habitantes) e leve redução em 2025, com 4 casos por 100.000 habitantes (Figura 1.1) . Esse comportamento é compatível com o impacto da pandemia de COVID-19 sobre o acesso ao diagnóstico e notificação, seguido de retomada dos serviços de saúde. A hepatite C mantém-se como principal etiologia ao longo de toda a série histórica, embora com comportamento mais complexo. Observa-se redução progressiva entre 2015 e 2020 (de 16,2 casos para 5,4 casos por 100.000 habitantes), seguida de retomada importante em 2021 e pico em 2024 (12,4 casos por 100.000 habitantes), com nova redução em 2025, chegando a 8,8 casos por 100.000 habitantes (Figura 1.1). Essa oscilação sugere forte influência das estratégias de testagem, acesso ao diagnóstico e possíveis efeitos das políticas de tratamento, mais do que mudanças abruptas na transmissão. A tabela 1.2 apresenta número absoluto de casos confirmados de hepatites virais por ano e segundo classificação etiológica, com predomínio da hepatite C em todos os anos analisados, seguida pela hepatite B. A ampliação do acesso à testagem rápida, especialmente a partir de 2014, desempenhou papel fundamental na detecção dos casos de hepatites virais B e C, contribuindo para o aumento das notificações e para o aprimoramento da visibilidade epidemiológica destas infecções. Outro ponto relevante é a melhora da qualidade da informação. A redução dos casos classificados como “ignorado” nos anos mais recentes indica avanço na vigilância laboratorial e no preenchimento dos critérios diagnósticos, refletindo maior qualificação das notificações.

Os casos de hepatite A apresentaram variação ao longo da série histórica, com maior frequência de casos notificados nas APs 2.1 e 3.2, em decorrência de surtos comunitários registrados nessas áreas nos anos de 2017/2018 e 2014, respectivamente (Figura 1.3). Em 2025, observa-se um aumento no número de casos, em relação ao ano anterior, em quase todas as APs, exceto na AP 5.3. A predominância do sexo masculino permanece ao longo da série histórica, o que pode estar associado a padrões comportamentais e exposições específicas. O perfil etário dos casos sofreu mudanças significativas ao longo do período. Inicialmente concentrados em crianças e adolescentes, os casos passaram a ocorrer predominantemente em adultos jovens (20 a 49 anos). Essa transição é consistente com o impacto da introdução da vacina contra hepatite A no calendário infantil a partir de 2014, que reduziu a suscetibilidade nas coortes mais jovens e deslocou a ocorrência da doença para faixas etárias não vacinadas. Observa-se melhora na completude da variável raça/cor, com redução de registros ignorados, além de mudança no perfil dos casos, com aumento proporcional de indivíduos autodeclarados brancos. Esse achado pode refletir tanto mudanças reais na distribuição da doença quanto maior acesso ao diagnóstico em determinados grupos. A variável escolaridade permanece como importante limitação da análise, com elevada proporção de dados ignorados (53,1% em 2025). A ocorrência de surtos ao longo da série, bem como aumento abrupto em 2025 (51 surtos), reforça o caráter cíclico da hepatite A e a necessidade de fortalecimento das ações de vigilância, especialmente investigação oportuna e resposta rápida a eventos de transmissão (Figura 1.3).

Os casos de hepatite B mantiveram-se relativamente constantes ao longo da série histórica, com redução temporária durante a pandemia de COVID-19 e posterior retomada, indicando que as variações observadas estão mais relacionadas à dinâmica dos serviços de saúde do que a mudanças estruturais na transmissão. A distribuição territorial evidencia concentração nas AP 3.1, 3.3, 5.1 e 5.2, padrão persistente ao longo dos anos, sugerindo maior carga da doença em territórios com maior vulnerabilidade social (Figura 1.4). O perfil epidemiológico dos casos permanece caracterizado por predominância do sexo masculino e concentração na faixa etária de 20 a 49 anos, compatível com os principais modos de transmissão da infecção (sexual e parenteral). A melhora na qualidade da informação da variável raça/cor é evidente, com redução progressiva de registros ignorados. Observa-se predominância de casos entre pessoas autodeclaradas pretas e pardas, o que reforça a relação entre hepatite B e desigualdades sociais em saúde. A escolaridade apresenta elevado percentual de registros ignorados, mas os dados disponíveis indicam maior ocorrência entre indivíduos com menor nível de instrução, sugerindo associação com condições de vulnerabilidade social (Figura 1.4). O padrão observado reforça a importância da manutenção de estratégias de prevenção, especialmente a vacinação universal, testagem ampliada e ações de prevenção combinada voltadas para populações mais expostas. A hepatite C apresenta tendência temporal evidenciando três momentos distintos: redução até 2020, crescimento entre 2021 e 2024, e nova redução em 2025. Esse comportamento sugere forte influência da oferta de testagem e estratégias de rastreamento, além do impacto do tratamento com antivirais de ação direta. A concentração maior de casos nas AP 3.1, 3.2, 3.3 e 5.2 mantém-se ao longo dos anos, indicando persistência de maior carga da doença nesses territórios (Figura 1.5). O perfil dos casos caracteriza-se por estabilidade na razão de sexos e predominância de indivíduos com idade superior a 40 anos, refletindo o curso crônico da infecção e o diagnóstico tardio. A melhora da qualidade do preenchimento da variável raça/cor é evidente, com redução dos registros ignorados e maior proporção de casos entre pessoas autodeclaradas pretas e pardas. A escolaridade, apesar da melhoria do registro, ainda apresenta elevado percentual de ignorados, apontando para maior frequência de casos em indivíduos com baixa escolaridade, evidenciando desigualdades no acesso à prevenção e ao diagnóstico. Entre 2014 e 2024, predominou a confirmação laboratorial da hepatite C por meio da positividade simultânea de anti-HCV e HCV-RNA. Em 2025, observou-se aumento da proporção de casos com apenas anti-HCV reagente (44,5%) e redução dos casos com confirmação completa (36,5%), possivelmente refletindo atraso no registro dos exames confirmatórios e a atualização oportuna no SINAN (Figura 1.5).


1.1. Taxa de incidência de hepatites virais com etiologia definida por ano, MRJ, 2014-2025

Fonte: SINAN, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



1.2. Classificação etiológica dos casos de hepatites virais por ano, MRJ, 2014-2025

Ano Vírus A Vírus B Vírus C Vírus B e D Vírus B e C Vírus A e B Vírus A e C Ignorado
2014 302 237 750
14 1
236
2015 149 294 1059 1 19 1
370
2016 16 238 862 1 10
1 365
2017 175 240 717 2 17
1 522
2018 370 207 732 2 10 1
403
2019 63 225 581
11
336
2020 39 139 363 1 7
135
2021 33 140 572 1 5 1 2 146
2022 117 244 390 1 13
210
2023 207 206 717 2 13 2 1 140
2024 379 284 840 1 16
5 171
2025 703 271 595 1 10 5
189
a Fonte: SINAN, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



1.3. Casos de Hepatite A

Número de casos por AP

Fonte: SINAN, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



Sexo

Fonte: SINAN, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.


Faixa etária

Fonte: SINAN, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



Raça/cor

Fonte: SINAN, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



Escolaridade

Fonte: SINAN, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



Surtos investigados

Ano Número de surtos Número de casos
2014 34 172
2015 18 52
2016 2 5
2017 6 249
2018 17 52
2019 4 30
2020 2 6
2021 0 0
2022 10 20
2023 10 44
2024 20 59
2025 51 186
a Fonte: SINAN, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



1.4. Casos de Hepatite B

Número de casos por AP

Fonte: SINAN, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



Sexo

Fonte: SINAN, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



Faixa etária

Fonte: SINAN, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



Raça/cor

Fonte: SINAN, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



Escolaridade

Fonte: SINAN, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



1.5. Casos de Hepatite C

Número de casos por AP

Fonte: SINAN, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



Sexo

Fonte: SINAN, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



Faixa etária

Fonte: SINAN, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



Raça/cor

Fonte: SINAN, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



Escolaridade

Fonte: SINAN, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



Marcadores

Fonte: SINAN, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



2. Mortalidade

A mortalidade por hepatites virais constitui um importante indicador do risco de óbito na população por essas causas específicas, refletindo, de forma indireta, as condições de acesso ao diagnóstico oportuno, ao tratamento adequado e à qualidade da assistência em saúde. A hepatite A mantém baixa mortalidade durante o período analisado, com ocorrência esporádica de óbitos (1 a 2 óbitos em alguns anos), refletindo seu caráter autolimitado. Esse contexto confirma a efetividade das ações preventivas, especialmente o saneamento básico e a imunização, sem dispensar a manutenção de sistemas de vigilância capazes de detectar e responder prontamente a eventuais surtos (Figura 2.1.1). Entre 2014 e 2025, a mortalidade por Hepatite B no Município do Rio de Janeiro manteve-se em patamares muito baixos, com tendência de redução ao longo da série e estabilização em níveis próximos de 0,1 óbito por 100.000 habitantes nos anos mais recentes. Observa-se um pico discreto no início da série (2017), seguido de declínio progressivo até 2019, sem retomada de crescimento posterior (Figura 2.2.1). A distribuição dos óbitos por sexo evidenciou predomínio do sexo masculino em praticamente todo o período analisado. Esse achado sugere maior vulnerabilidade desse grupo, seja por maior exposição a fatores de risco, menor adesão às ações de prevenção e acompanhamento, ou maior gravidade clínica ao longo da evolução da doença. Os óbitos concentraram-se principalmente em adultos mais velhos, sobretudo nas pessoas com 60 anos ou mais. A ocorrência de mortes em idades avançadas é compatível com a evolução crônica da infecção e com o acúmulo de complicações hepáticas ao longo do tempo. Há predominância de pessoas autodeclaradas brancas, seguidas por pardas e pretas e com baixa escolaridade entre os óbitos registrados (Figura 2.2.2). A distribuição territorial da mortalidade por Hepatite B no período de análise evidenciou heterogeneidade entre as Áreas de Planejamento, com taxas geralmente baixas e oscilações anuais em alguns territórios. Observou-se maior variabilidade nas APs 2.2 e 5.3, com ocorrência de picos pontuais em determinados anos, enquanto outras áreas apresentaram comportamento mais estável e taxas discretas ao longo da série (Figura 2.2.3). O padrão encontrado é compatível com o baixo número absoluto de óbitos, o que confere maior instabilidade às taxas anuais. Esse cenário também pode refletir avanços significativos no manejo da infecção crônica pelo vírus HBV, com ampliação do diagnóstico, acompanhamento e tratamento oportunos, além da melhoria progressiva da cobertura vacinal, fatores que contribuem para a redução do impacto da doença na mortalidade. A Hepatite C permanece como a principal causa de morte entre as hepatites virais. Entre 2014 e 2025, a mortalidade por Hepatite C apresentou tendência de redução, passando de valores mais elevados no início da série (2,2 óbitos por 100.000 habitantes) para patamares significativamente menores (0,4 óbitos por 100.000 habitantes) em 2025 (Figura 2.3.1). Essa queda sugere mudança favorável no perfil de mortalidade, compatível com avanços no diagnóstico, melhoria no acesso ao tratamento e no manejo da infecção crônica. Ao longo da série, os óbitos se concentraram majoritariamente entre os homens, podendo refletir diferenças de exposição, acesso ao cuidado e oportunidade de diagnóstico. Quanto à faixa etária, os óbitos foram predominantes em adultos e idosos, especialmente acima de 60 anos. Esse padrão é compatível com a história natural da Hepatite C, cuja progressão para complicações hepáticas graves ocorre de forma lenta e cumulativa ao longo dos anos. Houve maior proporção de óbitos entre pessoas brancas, seguida de pardas e pretas, com variações anuais ao longo do período de análise. A escolaridade concentrou-se principalmente entre 4 e 11 anos de estudo, com presença importante de casos com baixa escolaridade (Figura 2.3.2). A mortalidade por Hepatite C por AP apresentou redução importante entre 2014 e 2025, com taxas mais elevadas no início da série e declínio progressivo na maioria das APs. Embora haja heterogeneidade entre as APs, observa-se tendência geral de queda, compatível com avanços no manejo da infecção crônica pelo vírus, ampliação do diagnóstico e maior efetividade terapêutica (Figura 2.3.3).



2.1. Hepatite A

2.1.1. Número de óbitos por ano, MRJ, 2017-2025

Fonte: SIM, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



2.2. Hepatite B

2.2.1. Taxa de mortalidade por 100.000 habitantes por ano, MRJ, 2014-2025

Fonte: SIM, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



2.2.2. Características demográficas dos óbitos, MRJ, 2014-2025

Sexo

Fonte: SIM, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.


Faixa etária

Fonte: SIM, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



Raça/cor

Fonte: SIM, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



Escolaridade

Fonte: SIM, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



2.2.3 Taxa de mortalidade por 100.000 habitantes por AP e ano, MRJ, 2014-2025

Fonte: SIM, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



2.3. Hepatite C

2.3.1. Taxa de mortalidade por 100.000 habitantes por ano, MRJ, 2014-2025

Fonte: SIM, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



2.3.2. Características demográficas dos óbitos, MRJ, 2014-2025

Sexo

Fonte: SIM, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.


Faixa etária

Fonte: SIM, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



Raça/cor

Fonte: SIM, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



Escolaridade

Fonte: SIM, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



2.3.3 Taxa de mortalidade por 100.000 habitantes por AP e ano, MRJ, 2014-2025

Fonte: SIM, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



3. Vacinação como estratégia de prevenção

A vacinação permanece como uma das principais estratégias de prevenção das hepatites virais, especialmente para os tipos A e B, desempenhando papel fundamental na redução da incidência e da morbimortalidade associadas a essas infecções. Para ampliar as coberturas vacinais, a SMS-Rio tem mobilizado as unidades de Atenção Primária à Saúde (APS) com ações como: sensibilização da rede, atividades de educação em saúde, campanhas de vacinação e busca ativa de crianças com esquema vacinal em atraso. A vacina contra a hepatite A está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) para crianças menores de cinco anos, para grupos de maior vulnerabilidade, sendo, nesses casos, ofertada nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE) e também para usuários da Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP). Embora a cobertura vacinal contra a hepatite A em crianças menores de 2 anos tenha se aproximado da meta de 95% nos anos de 2023 e 2024 (Figura 3.1), uma nova queda foi registrada em 2025, indicando que o alcance e a manutenção da meta de cobertura vacinal no município ainda representam um desafio. Já a vacina contra a hepatite B é ofertada gratuitamente pelo SUS a toda a população. No entanto, observou-se, a partir de 2019, uma redução das coberturas vacinais em crianças menores de 1 ano, inicialmente devido ao desabastecimento nacional da vacina pentavalente, agravada posteriormente pela pandemia de COVID-19, o que resultou em índices abaixo das metas recomendadas. A partir de 2023, entretanto, foi registrada uma recuperação significativa na cobertura vacinal contra a hepatite B nas crianças menores de 1 ano, refletindo os esforços de retomada das ações de imunização (Figura 3.2).


3.1. Cobertura vacinal para Hepatite A em menores de 2 anos

Fonte: SIPNI, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



3.2. Cobertura vacinal para Hepatite B em menores de 1 ano

Fonte: SIPNI, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



4. Testagem rápida para hepatites B e C

A descentralização da testagem rápida para hepatites B e C na rede de Atenção Primária à Saúde, ocorrida em 2013, constitui uma das principais estratégias para ampliação do diagnóstico oportuno dessas infecções no município. O número de testes rápidos para hepatites B e C apresentou tendência de crescimento ao longo da série histórica, especialmente a partir de 2022. Após um período de estabilidade entre 2017 e 2019 e uma redução em 2020 e 2021, possivelmente relacionada aos impactos da pandemia de COVID-19 sobre os serviços de saúde, verificou-se expressiva retomada da testagem nos anos subsequentes. Em 2025, foram realizados 486.215 testes para hepatite B e 420.050 para hepatite C, os maiores volumes da série histórica (Figura 4.1). Esse aumento reflete o fortalecimento das ações de prevenção, diagnóstico e vigilância das hepatites virais no município, alinhado às diretrizes do Ministério da Saúde que preveem a oferta obrigatória dos testes rápidos durante todo o horário de funcionamento das unidades de saúde. Além disso, a realização do aconselhamento pré e pós-teste constitui componente fundamental da estratégia de prevenção combinada, contribuindo para a identificação precoce dos casos, a vinculação oportuna ao cuidado e a redução da transmissão das infecções. Cabe ressaltar que a SMS-Rio tem investido em estratégias de acesso avançado, como por exemplo, a estratégia Vanbora, unidade móvel que percorre diferentes regiões da cidade oferecendo testagem rápida para HIV, sífilis e hepatites B e C, além de ações de prevenção com distribuição de preservativos e vacinação contra hepatite B e outras vacinas previstas no calendário de vacinação para adultos. Essas iniciativas ampliam o acesso ao diagnóstico oportuno, favorecem a vinculação ao cuidado e contribuem para o alcance das metas de eliminação das hepatites virais como problema de saúde pública. De acordo com o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) das hepatites B e C, a positividade esperada na população geral é de aproximadamente 1% para hepatite C e 0,5% para hepatite B. Os percentuais de positividade observados ao longo da série analisada permaneceram abaixo desses parâmetros para ambas as hepatites. Para hepatite B, a positividade oscilou entre 0,1% e 0,4%, com menores percentuais em 2020 e 2021 e estabilização em 0,2% nos anos de 2024 e 2025. Para hepatite C, os valores variaram entre 0,2% e 0,5%, com elevação entre 2021 e 2024 e redução para 0,3% em 2025 (Figura 4.2). Esse padrão evidencia a manutenção de baixos percentuais de positividade em um contexto de ampliação da testagem, e reforça a importância da continuidade das ações de diagnóstico oportuno e monitoramento epidemiológico das hepatites virais.


4.1. Número de testes realizados para Hepatites B e C

Fonte: SISLOGLAB, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



4.2. Percentual de positividade dos testes para Hepatites B e C

Fonte: SISLOGLAB, SMS-RJ. Dados sujeitos a alterações.



5. Perspectivas e desafios

O cenário epidemiológico apresentado neste boletim evidencia avanços importantes na resposta às hepatites virais no município do Rio de Janeiro, especialmente na ampliação da testagem, na melhor qualificação da informação e na redução da mortalidade por hepatite C. Esses resultados indicam fortalecimento das ações de vigilância, prevenção, diagnóstico e cuidado, em consonância com as diretrizes nacionais e com o compromisso de eliminação das hepatites virais como problema de saúde pública até 2030, compromisso internacional assumido pelo Brasil junto à Organização Mundial da Saúde. A manutenção de estratégias integradas entre Atenção Primária, Vigilância Epidemiológica e Atenção Especializada também se configura como eixo estratégico para o alcance das metas de eliminação. A ampliação do acesso à testagem rápida, o fortalecimento das ações extramuros, a oferta contínua de vacinação e a vinculação oportuna ao cuidado são componentes essenciais para consolidar uma resposta mais efetiva e equitativa às hepatites virais no município. A organização adequada da rede assistencial, com encaminhamento oportuno dos casos, acesso precoce ao tratamento e seguimento clínico e laboratorial é fundamental para fortalecer desfechos favoráveis e reduzir a progressão da infecção. Os avanços terapêuticos disponíveis ampliaram as possibilidades de cuidado, contribuindo para a redução de complicações graves, como cirrose e hepatocarcinoma. Nesse contexto, o monitoramento contínuo dos indicadores epidemiológicos e operacionais torna-se fundamental para subsidiar o planejamento, a implementação e a avaliação das ações de saúde.



6. Considerações finais

Os achados apresentados neste boletim evidenciam avanços na ampliação da testagem, na qualificação da informação e na redução da mortalidade, especialmente por hepatite C, ao mesmo tempo em que reforçam a persistência de desafios relacionados à prevenção, ao diagnóstico oportuno, ao tratamento e ao enfrentamento das desigualdades em saúde. Nesse contexto, a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro dispõe de uma rede de Atenção Primária à Saúde ampla e estrategicamente organizada, com papel central na coordenação do cuidado e na porta de entrada do sistema. Essa estrutura é fundamental para a oferta de uma assistência centrada na pessoa e na comunidade, com potencial para fortalecer as ações de prevenção, rastreamento, diagnóstico precoce, tratamento e seguimento dos casos de hepatites virais. As hepatites A e B, por serem imunopreveníveis, exigem atenção permanente à manutenção e ampliação das coberturas vacinais, especialmente entre as populações prioritárias e os grupos mais vulnerabilizados. Já a hepatite C, por não dispor de vacina, demanda intensificação da testagem como estratégia essencial para a detecção precoce e o início oportuno do tratamento, de modo a evitar a progressão para formas avançadas da doença hepática e reduzir sua morbimortalidade. Dessa forma, o fortalecimento das ações de vigilância, a articulação entre os pontos da rede de atenção e da qualificação do cuidado representa condição indispensável para o enfrentamento das hepatites virais no município. Ao reunir e disponibilizar as informações epidemiológicas de forma transparente, este boletim contribui para ampliar a visibilidade do agravo, subsidiar a gestão e orientar estratégias mais efetivas de prevenção e controle.